sábado, 13 de junho de 2009

Um Memorial sem memória

Fazer registros históricos não é uma tarefa das mais simples. Nem todo mundo atenta em pegar uma máquina fotográfica ou um bloquinho de notas ou se dedicar anos e anos em pesquisas para registrar momentos e personagens importantes da história e perpetuar a vida de um povo.

As poucas pessoas que atentam para este detalhe o mínimo que se deve fazer ao utilizar seus trabalhos é dar o devido crédito, como forma de reconhecimento. E quando a história é sobre um dos mais empolgantes temas do Nordeste brasileiro e ainda mais, sobre a história que exalta e orgulha qualquer mossoroense, é quase uma obrigação "dar nome aos bois".

Há um ano, Mossoró ganhava um espaço próprio para homenagear seus heróis, o Memorial da Resistência. Nada mais apropriado para uma cidade com um museu fechado. Num projeto de R$ 2,5 milhões, a prefeitura transformou os recursos de arrecadação municipal num lugar que resgata todos os ângulos do dia 13 de junho de 1927, data em que o cangaceiro mais temido do Nordeste, Lampião, juntamente com seu bando tentou invadir e saquear o comércio de Mossoró e fugiu de mãos vazias da investida malograda.

Os textos narrativos sobre este episódio e que estão ilustrados nos painéis do Memorial, de acordo com o pesquisador e presidente da Sbec, Kydelmir Dantas, foram basicamente retirados de dois dos principais livros sobre o tema: "A Marcha de Lampião: assalto a Mossoró", de Raul Fernandes, edição de 1980 e "Lampião em Mossoró", do historiador Raimundo Nonato, livro de 1970.

"São dados, fatos e datas, conhecidos por todos os que dela fizeram parte e compilados por dois dos maiores historiadores mossoroenses, Raul e Nonato", afirma Kydelmir Dantas.

Outra "fonte" amplamente utilizada para a disposição no Memorial da Resistência foi o fotógrafo Manuelito, que deixou um grande acervo de imagens da Mossoró de antigamente. Quem hoje guarda mais de nove mil fotografias de Manuelito e que disponibilizou para os painéis do Memorial é o Museu Municipal Lauro da Escóssia.

No Memorial da Resistência, nem Raul, nem Nonato e nem Manuelito são reconhecidos pelos seus brilhantes trabalhos. Já alguns jornais da época estão devidamente listados, como é o caso do O Mossoroense (cujo jornalista Lauro da Escóssia foi o único no Brasil a entrevistar o cangaceiro Jararaca), Correio do Povo (pertencente ao jornalista e fotógrafo José Octávio, responsável pelas fotos dos Resistentes) e A Notícia (RJ) que publicou o Diário do Coronel Gurgel.

Grandioso e muito rico historicamente, o Memorial da Resistência é formado por um conglomerado de quatro prédios, divididos em "A Cidade", "A Batalha" e "O Cangaço" e ainda outro prédio com espaço para exposições, mirante, café e loja de suvenires. No entanto, a disposição dos prédios geralmente confunde o visitante.

Segundo Kydelmir Dantas, quanto ao formato seria necessário fazer alguns pequenos ajustes. "O que falta naquele espaço são guias turísticos, que conheçam da História, para que os visitantes não comecem a visitar pelo final (que são as fotos maiores), mas saindo a partir do Cafezal, passando pelas fotos dos Heróis da Resistência, entrando na História da cidade e do Estado, passando pela História da Resistência e finalizando com o as principais figuras do Cangaço", afirma.

Ademais, o Memorial da Resistência tem se constituído num monumento que valoriza a história da cidade e atrai visitantes e pesquisadores de todo o País, como afirma o escritor pernambucano Antonio Vilela de Souza. "Desde 1975, quando comecei a pesquisar sobre o cangaço, venho a Mossoró. Aqui, eu percebo um nativismo muito grande, o que já demonstra o valor que a cidade dá à sua própria história, diferente de muitos outros lugares que já visitei".
 
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